Aqui em Florianópolis existe a Zona Azul, vagas nas principais ruas da cidade em que você só pode estacionar se comprar um cartão pra meia hora ou uma hora. Esse cartão deve ficar no painel do carro, para que os fiscais vejam. São vendidos em algumas lojas e lanchonetes e por funcionários da empresa que ficam andando pelas ruas.

Pois bem. Estacionei em uma vaga da Zona Azul. Como estava com pressa, procurei a vaga mais fácil de estacionar. Vi uma atrás de outro carro, e havia uma pessoa com o uniforme da empresa, atendendo o motorista desse carro. “Ótimo!”, pensei, além de ser uma vaga boa, não teria que sair andando pela rua atrás do cartão. Estacionei, desci do carro e esperei um pouco. Como o tal motorista estava no celular e a moça de cabelos compridos e brincos estava de costas pra mim, mas só esperando que ele desligasse, resolvi chamar. “Moça, um cartão de uma hora, por favor.” OPS! Não era moça. Era um homem com cavanhaque e tudo. “Err, moço, um cartão…” Fiquei com vergonha do mico. Mas, ora, olhando de costas, não tinha como imaginar que o cabelo mais comprido que o meu e os brincos de argola não pertenciam a uma mulher.

Dentro da clínica de atendimento de urgência e emergência, passa um médico. Barba comprida, cheia. Brincos nas duas orelhas, daqueles alargadores, que deixam um buraco no meio. Parecia mais vocalista de banda de rock do que médico. Hum… Ainda bem que não era ele atendendo… Pode até ser competente. Mas não passou confiança. Imaginei um monte de vírus e bactérias agarrados àquela barba, sendo levados de um paciente a outro.

Tudo isso pra dizer que descobri que tenho, sim, preconceito. Achava que cada um devia se vestir e se enfeitar do jeito que bem entendesse. AchaVA. Vi que não é bem assim. Prefiro algumas coisas nos seus lugares, à moda antiga. Cabelos compridos pra quem pode usá-los: mulheres. O mesmo vale pra brincos. Barba comprida, piercings: não na área da saúde. Essa última parte deve ter a ver com minha formação – na faculdade de Fisioterapia, os alunos eram orientados a evitar qualquer roupa ou acessório que pudesse atrapalhar ou machucar os pacientes ou aumentar o risco de infecção (colares, roupas decotadas ou curtas, anéis, pulseiras, unhas compridas, cabelos soltos).

Claro que esse preconceito não chega ao ponto de tratar mal as pessoas, ou deixar de falar com elas, ou qualquer coisa assim. Eles, que são pessoas que não conheço e com quem não convivo, podem fazer o que quiserem. Mas quero que meu namorado continue assim, de cabelo curto e sem brinco. E o médico? Que ele escolha: ou os pacientes ou a banda de rock…